Uma carta de amor autossuficiente. 

Sempre quis uma declaração pomposa sobre mim mesma. 

Sempre quis que alguém inteligente, profundo e expert na minha personalidade me descrevesse em algumas linhas… Sem necessidade de uma data especial, de um aniversário ou de qualquer que seja a parabenização: Só queria um texto sobre mim e ponto. 

Egocêntrico, eu sei. 

 

Nesse texto, gostaria que descrevessem minha facilidade em conversar sobre qualquer coisa. Uma ou duas linhas sobre a minha gentileza, uma metáfora sobre a minha delicadeza,um pouco de zelo ao falar sobre a minha coragem… Poderiam também pautar a minha paixão por livros, escrita, desenho e teatro. 

Arte, arte, arte! 

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Não há necessidade de uma palavra sequer sobre minha aparência, mas um comentário sobre como as minhas mãos são suaves seria bem visto por mim. 

 

E o texto correria assim, cheio das mais piegas considerações.  Mas há espaço também para críticas construtivas: 

Gabriela não consegue acordar muito cedo. Não consegue praticar yoga todos os dias. Promete muito pra si mesma e cumpre muito pouco. Às vezes é um pouco grossa e se irrita fácil. Zero paciência. Tem insônia. Muita insônia. O tipo de insônia improdutiva, o pior tipo que tem. Não gosta de receber críticas. Precisa, urgentemente, trabalhar a teimosia. Tem dias que é agitada. Fala muito, fala alto, aumenta o tom da voz quando está entre amigos e faz amigos mais rápido do que respira. 

Fala sozinha. Cria diálogos que nunca acontecerão, cenas de brigas magníficas e reconciliações acaloradas.  Às vezes sente inveja. Às vezes torce pras coisas darem errado pra si mesma. E aí se culpa. E aí sente inveja.

 

Tem quem diga que é engraçada. 

Às vezes ela acha que é mesmo. Depois conclue  que as pessoas riem de qualquer bobagem. Ela queria ser tão segura quanto às pessoas acham que ela é. 

Tem dias que não sai de casa com medo de encontrar muita gente, sente frio na barriga, pânico, ataca a ansiedade, e no outro dia ela planeja uma turnê. 

Confunde não gostar com não querer, repetidas vezes. 

Um caos.

 

Poderiam fazer comentários fúteis mas que muito dizem sobre mim e sobre o meu contexto: 

Gabriela não gosta de ter as unhas por fazer. Usa o mesmo creme hidratante desde os 15 anos. Passa manteiga em todos, absolutamente todos, os cantinhos do pão. Chora por tudo mesmo dizendo que não chora por nada. Morre de dó de galinhas. Tem o estômago fraco e não come repolho. Toma cerveja e café, mas gosta mesmo é de vinho e chá. Adora azul. Tem vergonha dos dedinhos do pé. Ama geleia de damasco com queijo brie. 

 

Do meio pro final do texto, eles fariam mais algumas observações gentis e um tanto engraçadas pra dar o toque de leveza que uma biografia pede: 

Gabriela faz barulhos estranhos ao bocejar. Ama post it. Corre de forma desengonçada. E todo dia leva um tombo ou esbarra em algum móvel. Tem alergia à poeira. À amendoim também. E ao remédio cataflan. Ela nunca viu um cataflan. 

Que ficasse claro nesse texto que Gabriela às vezes é Gabie. 

E Gabie pra ela nem é mais apelido: é alter ego.  De Gabriela só chama quem tem intimidade, quem ela deixa chamar. 

Já Gabie é do mundo, é da internet e é de quem quiser. 

 

O texto finalizaria com talvez um "eu te amo", a assinatura do autor e pronto. Nunca ninguém fez um texto desse pra mim. 

Nem ninguém chegou perto disso. Foi então que eu resolvi fazer. 

Demorei alguns bons anos pra entender que eu mesma poderia ser minha autora.  Eu posso ser minha própria musa inspiradora.

Minha escritora e minha leitora mais fiel. 

 

Finalizo então; Gabriela adoraria receber textos bonitos, românticos, e na falta deles escreve pra si mesma.

 

Com muito amor, 

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